sábado, 11 de fevereiro de 2023

Resenha [110223] - The Banshees of Inisherin (2022), Martin McDonagh

 

A amizade é uma coisa séria. É ainda mais quando ela parece ter durado a vida toda e, de uma hora para a outra, tem seu fim. É exatamente esse o enredo do filme: uma longa amizade que um dia acaba porque Colm sente que precisa deixar algo de si para o mundo (uma música, especificamente) antes de morrer e para isso precisa cortar da sua vida tudo o que é “supérfluo” – incluindo o tempo que passa com Pádraic.

Fins são inevitáveis e todo mundo já está cansado de saber disso, mas o fim de uma amizade pode ser bem cruel, ainda mais quando o motivo é simplesmente porque não funciona mais para uma ou as duas partes da história. É por isso Pádraic reage das piores formas possíveis e o que no início parecia uma tentativa de ter seu amigo de volta, se torna uma busca por um motivo "real" para que Colm queira acabar com tudo.

A escolha do ar bucólico e da Guerra Civil como pano de fundo contribuíram demais na experiência de ver a guerra que ia se estabelecendo aos poucos entre esses dois homens tão diferentes, mas que um dia já foram grandes amigos. É quase como uma representação do que esse fim significa para cada um deles também: a arte e a harmonia que Colm busca para si, a raiva e a solidão que Pádraic começa a sentir.


Durante essa cena, Colm leva Pádraic para casa após ele levar uns socos do policial da ilha. A essa altura no longa, Colm já havia acabado com a amizade deles e até discutido, mas ainda assim ajudou Pádraic quando ele precisou. Na mesma hora eu pensei: “ele ainda ama, só não gosta mais” e me emocionei. Além disso, o olhar do Pádraic sobre o Colm, transmitindo uma dor muito maior do que a da porrada que levou há alguns minutos (ou quem sabe horas, não sei a distância dos lugares na ilha), em conjunto com o final deles entre dois caminhos, cada um indo para um lado, foi simbólico e extremamente lindo para mim.

As cores desse filme são lindas demais. Parece que é sempre o início ou o fim do dia com pouco espaço para o céu nublado e a noite escura. Quando eu vi as fotos desse filme pela primeira vez, a primeira coisa que pensei foi: “isso é tão Tarkovsky”, e não poderia estar mais certa. Esse filme tem um enredo existencial, uma fotografia impecável e me traz a mesma sensação contemplativa sobre a vida que o Tarkovsky me fez sentir com O Sacrifício (1986).

Falando em técnica, o som desse filme é bem imersivo. Sinceramente, eu não lembro mais das músicas que tocavam, mas lembro de serem bem apropriadas para os momentos que surgiam. A montagem não me agradou tanto. Ela tenta se fazer invisível, funciona em grande parte do longa, mas às vezes eu sentia que não precisava de tantos cortes. Talvez eu esteja bem errada e com menos cortes a sensação de lentidão do filme deixaria ele mais chato e menos agradável do que já é para muita gente que odeia ritmos tão lentos, mas eu sou fã de planos longos e ainda mais com uma paisagem tão linda.

McDonagh possuí um certo humor para abordar a vida que não é tão realista, mas também não é super absurdo. Definitivamente, Os Banshees de Inisherin é uma tragicomédia muito mais puxada para a tragédia. Não me prendeu durante o tempo inteiro, mas me surpreendeu e emocionou de uma maneira muito positiva.


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