Na noite passada, sonhei que eu estava sendo presa junto com a Angel de Verdades Secretas (2015) e um casal jovem de canibais. Eu não fazia ideia nenhuma de o que eu fiz para estar lá, mas achei engraçado a conversa do casal no sonho. Agora, também não faço a mínima ideia do que eles falavam, mas encarei como um sinal para assistir esse filme hoje.
Bones and All tem uma premissa bem simples: dois jovens amadurecendo enquanto colocam o pé na estrada e colecionam algumas mortes no caminho.
O que me prendeu e fez as duas horas de filme passarem voando foi a maneira como isso é abordado; através do sentimento de solidão e o desejo de descobrir seu lugar no mundo, a gente vai conhecendo a Maren e o Lee, pessoas completamente diferentes, sem pré-julgamentos estabelecidos. A empatia aqui é construída naturalmente, tipo o que o Fassbinder fez eu sentir com As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (1972).
Eu acho cores quentes infinitamente melhores que cores frias e ver os tons laranjas se sobressaindo me alegrou muito. O lado canibal e consequentemente mais visceral é na medida certa: nem muito explícito, nem muito escondido. Acho que em nenhum momento a gente vê facadas ou mordidas sendo diretamente mostradas na nossa cara, mas a quantidade de sangue é suficiente para que nossa imaginação faça o resto do trabalho. Eu, particularmente, acho que imaginar me perturba bem mais do que ver, então para mim isso tem um lado bem positivo.
A montagem às vezes me incomodava em uns cortes onde o movimento dos personagens não estava tão sincronizado com o próximo plano. Houve dois momentinhos que, para mostrar que estamos vendo através dos olhos da Maren e que ela está procurando por algo ali, temos aqueles rápidos jump cuts nos mostrando para onde ela está olhando. É bem legal, eu gostei bastante disso e espero que o Guadagnino use em outros longas dele.
Eu gostei de Bones and All do inicio ao fim. Confesso que enquanto se aproximava do final, comecei a ficar com medo de terminar ou absurdamente “feliz” ou ser tão triste que me deixaria mal pois eu simpatizei com os protagonistas, mas de qualquer forma fiquei satisfeita com como o filme acaba. Tem uma poesia visceral que eu só vi nas coisas que a Fernanda escreve, mas visualmente é deslumbrante de se ver. Espero muito que o diretor se aventure mais vezes em filmes mais puxados para o terror (e sim, eu estou ignorando polêmicas ao escrever isso).







