domingo, 16 de julho de 2023

Resenha [160723] – Um Dia, Você Chegará Ao Mar (2022), Ryutaro Nakagawa

 

Em Um Dia, Você Chegará Ao Mar, somos apresentados as memórias e emoções de Kotani, uma garota que está passando pelo luto de ter perdido sua melhor amiga.

Assim como em Mio na Margem (2019), Ryutaro também usa de uma experiência pessoal para falar sobre um sentimento coletivo. A diferença entre as duas narrativas é que em Mio na Margem, eu tive uma sensação de propaganda, uma coisa meio: “olhem isso aqui! Isso é um problema! Viram só?”. Já nesse filme, eu não só me sensibilizei pela história da Kotani, mas pude criar consciência sobre um problema que afeta uma sociedade inteira sem sentir que estou sendo manipulada à chegar nisso (mesmo sabendo que estou. Isso é cinema, afinal).

Durante o longa, vamos transitando entre o passado de Kotani com Sumire, sua melhor amiga, e o presente, onde Kotani tenta seguir em frente e superar o que aconteceu. As conversas entre as duas são lindas e nos aproximam muito delas. Dá pra ver uma evolução de roteiro quando eu penso (ainda) na Mio.

O que eu mais quero falar, realmente, é da direção de fotografia. Essa luz é tão linda e parece tão natural que eu muitas vezes nem consegui imaginar como foi feita (e eu amo pensar sobre onde deve estar o refletor, se tem filtros, onde tem compensação, black-out, etc). Esses movimentos de câmera na mão que às vezes são em espaços tão pequenos, em planos tão longos, até frontais em alguns momentos, me surpreenderam demais. Haja braço e coluna pra fazer tudo isso, mas valeu a pena. É lindo e contribuiu muito para toda a atmosfera sensível que o longa tem.

Um Dia, Você Chegará Ao Mar é um filme muito lindo. Ryutaro sabe bem retratar emoções tão dolorosas de um jeito que vai além de apenas mostrar uma personagem melancólica ou triste. A gente consegue entender o que a Kotani sente e nem sempre ela precisa dizer o que é. A evolução dele fica bem clara aqui pra mim.

Esses dois filmes me provam que o Ryutaro é um diretor que sabe trabalhar muito bem com a sensibilidade, mesmo que às vezes ele perca um pouco a mão e pareça mais didático, isso não diminuí a qualidade do seu trabalho.


Resenha [260223] – Acossado (1960), Jean-Luc Godard

Acossado é muito mais que a montagem, mas quanto menos a gente repara no resto, mais o filme parece brilhante. É meio contraditório, mas é também a cara do Godard.

Eu fiz um seminário sobre esse filme no ano passado para a cadeira de História do Cinema e, assim como boa parte das pessoas, foquei muito mais na montagem na hora de falar sobre o filme. Todo mundo já tá cansado de saber o quão revolucionário e genial o Godard consegue ser em cada filme que ele já produziu, mas pouco se fala sobre o enredo dos filmes dele na hora de estudar. Acossado nos mostra algo que eu nunca vi em nenhum outro filme antes.

A premissa é bem clichê. Michel é um mulherengo charlatão fugindo das encrencas que se meteu enquanto sai com Patrícia, uma jornalista estrangeira que sabe muito bem aproveitar a vida. É um romance intenso e divertido de se acompanhar, mas o que torna Acossado uma obra prima é a câmera na mão, os cortes secos, as quebras da quarta parede e o bom humor para tratar todo o enredo.

O que exatamente eu quero falar (depois de babar muito o ovo do Godard sobre tudo que todo mundo já sabe), é da Patrícia e das questões dela. Michel é bem fácil de se desvendar: ele está apaixonado e é um inconsequente, mas a Patrícia, ela sempre nadou contra a correnteza, e essa paixão por Michel mexe com todas as crenças que ela tinha.

Desde a primeira aparição da Patrícia no longa, é possível notar que ela é uma mulher moderna e independente, nem um pouco tradicional ou dentro da moralidade da época. Mesmo assim, o amor parece uma prisão para ela, uma dependência que assusta qualquer garota que já tenha sentido a liberdade pelo menos uma única vez.

Patrícia passa o filme todo com esse drama: fujo com Michel e experimento esse sentimento novo, ou deixo ele e continuo seguindo com minha vida?

Quando eu terminei de assistir, odiei como ela estragou minha experiência de ver um romance intenso e cheio de adrenalina, mas depois, pensando melhor, acho que Patrícia foi muito inteligente ao escolher a si mesma no lugar de um amor de verão que tinha tudo para acabar mal. Ela só tinha que escolher entre ir para o fundo do poço com Michel ou não. De qualquer forma, Michel é tão bom de lábia e tão charmoso que conseguiu me fazer sentir pena dele até seus últimos segundos de vida.


(>^_^)> Destaque <(^o^<)

Um sonho

Acordei de um sonho hoje, querendo achar o Sol sob o rio. Deixei a água me encontrar e no seu toque, um choque frio. A luz dourada que ilumi...